Assuntos relacionados à saúde em geral, medicina ocidental, oriental, alternativa, trechos de livros e revistas.

domingo, 26 de julho de 2009

O que é energia perversa

Energia Perversa é uma energia que, na maioria dos casos, não é própria ao organismo e que, por algum motivo, nele se instala, causando perturbações e desequilíbrios que geram sintomas e doenças, dependendo de onde essas energias perversas se instalam.

O vento é sempre o agente carreador das energias perversas, levando-as para dentro do organismo.

Um organismo saudável não se deixa penetrar por energias perversas, pois não deixa "brechas" para possibilitar essa entrada .

Umidade, Calor, Frio, Sequidão e Vento, são energias que estão presentes na natureza e que em essência não são perversas ao ser humano.

Elas só adquirem essa denominação, quando se alojam indevidamente dentro do organismo provocando patologias. Mas, como já foi explicado, elas somente penetram em organismos debilitados.

A energia Perversa penetra em um espaço deixado pela má distribuição de energia dentro do organismo.

Um exemplo é a penetração do Vento-Frio no organismo, que pode gerar dores de cabeça, entre muitas outras coisas.

Utilizamos o tratamento pela Acupuntura para expulsar as energias perversas e redistribuir corretamente a energia correta no organismo, fazendo, assim, cessarem os sintomas gerados pela invasão da Energia Perversa.


O que são meridianos

Meridianos são canais ou caminhos invisíveis que são percorridos pela energia no corpo.

Quando a energia fica bloqueada nesses canais, surgem desequilíbrios e a acupuntura procura sempre mobilizar a energia, fazendo-a circular dentro deles.
Existem 12 meridianos principais que estão associados à órgãos e vísceras, além de outros tipos de meridiano relacionados com outras funções.

Os meridianos possuem um trajeto interno e um trajeto externo. O trajeto externo é utilizado pela acupuntura para estimulação dos pontos. O trajeto interno é a parte do meridiano que entra em contato com os órgãos e vísceras que lhe dão o nome (esse trajeto interno não se relaciona somente com o órgão que dá nome ao meridiano, mas também com outros órgão que o meridiano encontra internamente)

Por isso quando estimulamos um ponto na borda do dedo polegar e dizemos que estamos tratando os pulmões, é por que estamos estimulando a região externa do meridiano dos Pulmões que, ao entrar no organismo, se comunica diretamente com os pulmões "irrigando-o" com sua energia.

Os pontos de acupuntura são regiões especiais dentro desses trajetos (meridianos) que , quando estimulados , promovem uma ação especifica (aumento, dispersão, regulação da energia) dentro do canal.

Fica muito mais fácil compreender a dinâmica da energia dentro dos meridianos quando os comparamos à um sistema comunicante de canais de água. Vamos considerar que a água representa a energia circulante nos meridianos.

Se a água se acumula em um canal e não se escoa, ela irá transbordar e inundar as proximidades do canal (essa situação representa um bloqueio de energia provocando o seu transbordamento do meridiano, fazendo com que apareça a dor em locais situados no trajeto do meridiano afetado).

Para resolver esses problemas temos que abrir comportas (atuar sobre pontos de acupuntura) e fazer escoar essa água, pois certamente em alguma outra região do sistema estará faltando a água que neste ponto transborda (se houve um bloqueio, uma parte do canal está com muita energia e a outra parte não está recebendo o suficiente).

Assim promovermos o equilíbrio no sistema de canais.

Devemos manter sempre abertas as comportas do sistema de canais para que a água flua por eles e, assim não apareça um desnível de água (um desequilíbrio que, se não for resolvido à tempo, pode transbordar dos canais, gerando algo mais sério e de difícil solução, isto é, uma doença).

Sendo assim é melhor nos prevenirmos com sessões periódicas ao acupunturista (para mantermos as comportas abertas, sem bloquear o fluxo d'água), do que procurarmos o acupunturista na hora do alagamento...


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Psiquiatria: Prazer e Realidade

Qualquer indivíduo portador de uma alucinação não vê a realidade do mundo exterior como ela realmente é. Os alucinados, ao ouvirem vozes que anunciam sua predestinação de salvar o mundo, acreditam-se dotados de poderes sobrenaturais, totalmente alheios à realidade de suas próprias limitações. Nesses casos, a alucinação nada mais é do que um dos meios para satisfazer suas aspirações.
As alucinações traduzem um afastamento claro da realidade. Nem sempre, porém, o alheamento é tão dramático ou tão visível. Há mesmo casos em que o desligamento passa despercebido, como no exemplo do neurótico que se vê diante de uma tarefa nova. Poderá sentir uma angústia muito intensa, a qual, por sua vez, dará origem a temores sem fundamento. É quando o medo faz parecer maiores as dificuldades reais da tarefa. A pessoa, mesmo conscientemente apta para o trabalho, estará presa a um receio cada vez maior de enceta-lo, temendo o fracasso. O neurótico em questão perdeu a capacidade de julgar os obstáculos normais, que sua mente agiganta.
Na fase adulta, os indivíduos normais buscam sempre o equilíbrio entre dois princípios: um subjetivo (e interno) - o prazer - e o outro objetivo (e externo) - a realidade do mundo que o cerca e da qual depende.

O CHOQUE - A busca do prazer comanda e domina toda a vida inconsciente do homem. No recém-nascido, esse princípio é praticamente o único que existe, com sensações de bem-estar ou de mal-estar. Quando no útero materno, a criança recebe tudo o que precisa da mãe. Ao nascer, inicia sua adaptação ao mundo real já com a necessidade primária de aspirar seu próprio oxigênio.
A alimentação é outra necessidade básica que vai sentir pela primeira vez. Ignorando a existência do mundo exterior, “imagina” que está alimentada. O recurso aplaca, por algum tempo, a sensação de fome. Mas, logo depois a fome reaparece e a criança provavelmente chorará, sendo então alimentada pela mãe. Todo o processo não ocorre conscientemente, mas de forma instintiva.
A fome é um estímulo e, como tal, produz manifestação física ou motora. Alimentada pela mãe, a criança readquire o estado de prazer e aos poucos vai percebendo que somente com o auxílio do mundo exterior pode atender às suas necessidades. A partir daí, vai-se relacionando com a vida exterior e começa a sentir a existência dos primeiros choques entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.

DE OBJETO A SUJEITO - Quando percebe que depende do mundo exterior para sobreviver, a criança aos poucos vai substituindo o princípio do prazer pelo princípio da realidade. Começa então a desenvolver faculdades que lhe permitam adequar-se ao meio.
Na mesma medida em que progride nesse processo, vai deixando de ser objeto passivo e inerte dos acontecimentos, para se transformar em agente e sujeito. Passa a tomar iniciativas em seu próprio benefício, tirando do mundo real exterior o atendimento às suas necessidades. Como primeira parte do processo, desenvolve os sentidos “captando” os acontecimentos externos. Aprende a reconhecer cores, cheiros, pesos, formas. Começa a identificar as vozes das pessoas e os fatos ao seu redor. Aos poucos, livra-se do esquema primário do prazer-desprazer, passando a desenvolver a consciência e a faculdade de atenção para adquirir conhecimentos.
As informações adquiridas são guardadas na memória. Esse “arquivo” é muito importante porque é o que dá meios para a comparação do fato que está acontecendo com os atos já acontecidos, preparando mais facilmente uma ação adequada.

TEORIZAÇÃO - No início, os estímulos geravam descargas motoras imediatas, ou seja, qualquer ação física como a de chorar, por exemplo. Com o maior conhecimento da realidade, o desenvolvimento da consciência e o auxílio da memória, a reação do indivíduo também passa por uma adaptação. Enriquece-se, ganha um novo sentido e passa a agir sobre a realidade presente, procurando modificá-la. A resposta motora, que aparecia imediatamente após o estímulo, torna-se mais controlada e acompanhada por ações acionais. Isto é, quando tem fome, a criança simplesmente chora. Quando o adulto tem fome, vai procurar comida. Criou-se, assim, a capacidade de acumular tensões, contrariando o ato instintivo de descarrega-las imediatamente e de forma muitas vezes inócua.
A mesma capacidade leva a outro caminho muito importante: a possibilidade de suprimir a ação e resolver os problemas apenas com processamentos teóricos, exclusivamente intelectuais.
Serve de exemplo o homem que está preocupado e tenso diante da impossibilidade de saldas todas as suas dívidas. Estas são uma realidade externa, que alteram o equilíbrio mental e provocam intenso desprazer. O homem faz suas contas mentalmente e verifica que alguns “cortes” nas despesas serão suficientes para resolver a situação. Encontrada a solução, readquire sua tranqüilidade sem ter, efetivamente, agido para pagar as dívidas.

O SEXO - A capacidade de substituir o princípio do prazer pelo princípio da realidade é lenta e gradativa. O instinto sexual, de caráter individual e egoístico, é um dos mais dificultam a assimilação plena do princípio da realidade. O sexo serve-se de fontes de prazer e satisfação do próprio indivíduo e não depende, nesses casos, da realidade exterior. O narcisismo (auto-erotismo) permite a obtenção do prazer sem a necessidade, cada vez maior, de lidar com a realidade exterior, para retirar dela a satisfação.
É freqüente, no desenvolvimento da psique, o estacionamento da vida sexual no estágio auto-erótico, devido à disposição que a pessoa apresenta de permanecer ligada ao princípio do prazer na realização sexual - isto é, não procura fora do Ego o objeto adequado à satisfação adulta.
As neuroses podem ser entendidas mais facilmente, quando são estudadas as várias etapas da evolução do instinto sexual, indo da satisfação auto-erótica até a realização adulta. Em outras palavras, a evolução vai até o encontro de um objeto adequado com o qual o indivíduo se complementa, através da união correta e com a finalidade de reprodução.

O BLOQUEIO - Nas neuroses, as pessoas se encontram mais ou menos bloqueadas. Sua interligação com o mundo real e exterior sofreu uma série de modificações. Em decorrência, o comportamento deixou, parcialmente, de ser regido pela realidade que o circunda. Pode-se admitir que esse comportamento normal foi substituído pelos sintomas neuróticos.
Os portadores de neurose obsessiva, por exemplo, estão permanentemente se preparando para uma ação, ao mesmo tempo em que procuram assegurar a todo instante as possibilidades de desenvolver a mesma ação.
Uma das características mais importantes no processo inconsciente - situado na inconsciência devido ao recalque - é a elaboração de uma realidade puramente mental e bem semelhante à realidade exterior. Essa criação conduz a dificuldades muito sérias para distinguir ou estabelecer diferenças entre o que é fantasioso, produto exclusivamente mental, daquilo que é realidade e pertencente ao mundo externo.
De qualquer forma, o princípio do prazer não é suprimido pelo princípio da realidade. O que pode ocorrer é a realidade externa dificultar ou atrasar a obtenção do prazer. Mas a pessoa, com as armas que desenvolveu, tem melhores condições para enfrentar a dificuldade e conseguir conduzi-la ou modifica-la para lograr uma satisfação maior e mais válida.

Psiquiatria: Sonhos

Ele tinha sonhado a noite inteira com um pássaro escuro, de asas imensas e bico arqueado. No dia seguinte, não teve dúvida: jogou firme na água. Quando à tarde deu cavalo, o rapaz achou que provavelmente não tinha interpretado bem o sonho e ficou à espera de nova oportunidade.
Achar que sonho é presságio de algum acontecimento, bom ou mau, é uma das atitudes místicas mais antigas. E a crença se reforça com obscuras estórias de premonição parapsicológica, expressão que sugere erudição e, portanto, crédito. Mas na psiquiatria, os sonhos continuam a ser manifestações muito especiais, de sentido bem diferente.
Os psiquiatras costumam advertir, sempre que uma pessoa lhes pede para interpretar algum sonho, que a probabilidade de acertar com o significado de um sonho é menor ainda do que a de adivinhar o bicho que vai dar no dia seguinte. O sonho, isolado da constelação de fatores que constituem a história do paciente e dos caracteres de sua personalidade, nada significa. A boa interpretação de um sonho sempre tem de levar em conta o conjunto de dados que o psiquiatra haja conseguido apurar. Portanto, sonhar que está nadando não significa forçosamente que a pessoa esteja dando vazão a seu desejo reprimido de masturbar-se. O dado ou o símbolo, isolados, não significa coisa alguma.

A TEORIA DE FREUD - Os primeiros estudos importantes em torno da significação dos sonhos foram os que Freud empreendeu, no começo de suas investigações. Significativamente, o primeiro livro de Freud tratava justamente da interpretação dos sonhos. Hoje, as idéias de Freud não são plenamente aceitas, embora se reconheça que seu trabalho abriu caminho para uma teoria científica dos sonhos. Contudo, é importante iniciar uma apreciação do assunto justamente pelas primeiras descobertas freudianas no campo.
Para Freud, o sonho era um recurso ativo da mente, através do qual as tendências egoísticas e libidinosas se libertavam das limitações reais da vigília para encontrarem satisfação simbólica ou representada. A pessoa adormecida, assim, reproduzia “o isolamento feliz da vida intra-uterina, pois voltava ao primitivo estágio de distribuição da libido, ou seja, ao narcisismo absoluto, estado em que a libido e o interesse do ego, unidos e indiferenciados, existem no mesmo ego, que se basta a si mesmo”.
O sono, portanto, não representa nenhum estado de repouso ou de isolamento absoluto: os sonhos são uma atividade do sono. E essa atividade pode ser influenciada ou mesmo determinada por estímulos externos ocasionais, como um ruído ou cheiro, que passam a integrar o enredo do sonho. Mas não interferem com o significado.
Outros estímulos são de origem interior, psíquica ou somática (soma = corpo). Os estímulos interiores oriundos do psiquismo profundo do indivíduo em geral aparecem camuflados, de modo que os impulsos instintivos que lhes deram origem podem encontrar expressão livre, sem os embaraços da censura moral, que os reprime em condições normais.
Tais estímulos se manifestam por símbolos. Mas não se trata de símbolos fixos, e sim de símbolos subjetivos e circunstanciais, criados de acordo com as condições da situação vivida pelo indivíduo. É por essa razão que tais símbolos perdem significado quando isolados do contexto. Quando muito, alguns símbolos mais comuns poderão apresentar significado paralelo, em casos diferentes. Mas nunca virão a constituir uma linguagem estruturada em sistema válido para todas as pessoas e todas as situações. O domador de leões que sonha com um leão está ruminando mentalmente uma experiência comum e, portanto, o símbolo aí tem significado inteiramente diverso do leão sonhado por uma pessoa que jamais tenha visto uma fera de perto.

INTERPRETAÇÃO - Outro postulado freudiano é o de que o sonho nunca representa fielmente o estímulo ou o conjunto de estímulos que o determinam. Em outras palavras, o sonho não se identifica com suas causas, na aparência.
Interpretar um sonho, portanto, significa estabelecer a relação verdadeira entre as imagens e os impulsos instintivos que elas exprimem, Dessa maneira, tais impulsos inconscientes são conscientizados e o psiquiatra toma conhecimento de mais um dado do problema apresentado pelo paciente. Este, por sua vez, ao tomar consciência dos fatores que constituem a temática do sonho, passa a conhecer também a motivação de seu comportamento em certas circunstâncias. Em outras palavras, fica sabendo o que realmente quer; desse novo conhecimento poderá desenvolver orientação mais objetiva para seu comportamento, naquele aspecto.
Freud achava que, normalmente, o indivíduo conhece o significado de seus próprios sonhos, mas reprime a interpretação, para proteger-se das sanções de seu próprio superego, o mecanismo de censura da vida psíquica.
Os elementos sensíveis do sonho eram chamados por Freud o “conteúdo manifesto”. Quando, na descrição do sonho, o paciente relacionava o conteúdo manifesto com situações aparentemente irrelevantes, fazia uma associação livre. Para a interpretação dos sonhos, as associações livres são essenciais, porque ampliam o sentido aparente dos símbolos sonhados. Um lápis, no sonho, poderá ser o símbolo do órgão genital masculino. Esse sentido poderá ser confirmado se o sonho descrito for associado livremente pelo indivíduo com situações em que apareçam garrafas, armas de fogo, mangueiras. Cada um desses objetos pode ser um símbolo fálico, por causa de certas analogias - formato alongado, extravasamento de conteúdo por orifício e assim por diante. Isoladamente, poderá não ter tal sentido. Mas se em sucessivas associações aparecem símbolos análogos, a probabilidade de a interpretação ser correta aumenta proporcionalmente.
O problema, para o psiquiatra, é o de juntar tantos fragmentos esparsos e com eles compor um quadro, uma configuração do problema global. Entre outras coisas, a tarefa exige argúcia, perspicácia, técnica e um bocado de inteligência, porque qualquer erro poderá levar a um disparate.
Esse tipo de interpretação dos sonhos surgiu à medida que Freud realizava numerosos tratamentos psicanalíticos. Freud empregava a associação livre clássica para outros fins que não a interpretação dos sonhos. Em termos simples, a técnica consiste em dizer palavras esparsas e pedir ao paciente que responda a cada uma delas com a primeira palavra que lhe vier à mente. Cada palavra do psiquiatra, assim, constitui estímulo para manifestação de impulsos inconscientes reprimidos pelo paciente.
Ao aplicar essa técnica, na prática, Freud observou que em geral os pacientes associavam as palavras a cenas, objetos ou pessoas que figuravam em seus sonhos. A partir daí, nasceu-lhe a suspeita de que os sonhos estavam associados a experiências que a pessoa não podia viver por causa de repressão inconsciente. Parece trivial, hoje, mas era uma descoberta excepcional para a época.
O mecanismo de censura, porém, é um hábil adversário nesse duelo entre o consciente e os fugidios impulsos inconscientes. A pessoa poderá esquecer inteiramente os sonhos e até mesmo chegar a dizer que “nunca sonha”. Sabe-se hoje que todas as pessoas sonham, o que se comprova por comparações de ondas registradas num eletroencefalograma. Mas o medo de interpretar os sonhos faz com que se desvaneçam na memória todas as imagens remanescentes. Em tais casos, claro está que o mecanismo inconsciente de censura e bloqueio é muito mais eficaz do que normalmente se apresenta nas demais pessoas.

OS SONHOS - Segunda Parte

Cada pessoa, quando sonha, realiza uma “encenação” onde é o ator principal, o diretor, o iluminador, o cenógrafo, etc. O sujeito do sonho, enfim, desempenha o quadro sonhado da maneira que o inconsciente elege como a mais adequada, e a representação é ditada por ele. Suas manifestações não se prendem rigidamente à vida real, mas constituem elaboração dos elementos colhidos na vivência cotidiana. Tudo aparece conforme a fantasia criativa do sonho, onde os conceitos de tempo, espaço e lugar não têm o mesmo significado de quando o indivíduo está acordado.
A necessidade de uma pessoa realizar um desejo inconsciente pode manifestar-se no sonho de inúmeras maneiras, pois os estímulos internos e externos (veja Os sonhos - primeira parte) permitem-lhe compor um enredo. Podem aparecer, então, imagens aparentemente absurdas, ilógicas e extemporâneas. O sujeito do sonho pode estar no Ceilão para instantaneamente passar a agir no Pólo Sul. Nada é impossível, pois o inconsciente pode comandar o desenvolvimento como bem “entender”, desde que as imagens criadas (os símbolos) não venham a causar muita angústia ou aversão. Por isso, durante o sonho, a pessoa freqüentemente desenvolve um mecanismo de defesa contra qualquer ameaça à sua integridade psíquica. A este mecanismo, Freud deu o nome de censura onírica (de Oneiros, demônio grego, que na mitologia significava sonho).

CENSURA NO SONHO - A deformação nos sonhos é produzida por uma das facetas do “organizador da peça”: o ego, que nesse momento assume o papel de figurinista e transfigura os personagens e as coisas para identifica-los com uma situação aparentemente irreal.
A censura muito forte geralmente se manifesta quando os fatos camuflados são, na realidade, manifestações nas quais o indivíduo vê uma situação indecorosa ou extremamente desagradável. O ego, então, veda a passagem da verdade. Assim, as sanções que a sociedade inflige aos indivíduos fazem, por exemplo, com que os instintos sexuais só possam ser dirigidos a pessoas que não sejam de sua família (tabu do incesto). Nos sonhos, um desejo libidinoso em relação a uma irmã ou à mãe não aparece no conteúdo manifesto do sonho: Vem disfarçado, com outra roupagem.
O ego, portanto, colabora para que o sono mantenha uma característica repousante. Quando o sonho se inicia, cada estímulo externo ou interno, ou ambos, passa a integrar o enredo, de acordo com a vontade inconsciente que as pessoas têm de realizar um objetivo. Para Freud, seria sempre um fim instintivo, mas, modernamente, o conceito de realização não se restringe somente ao instinto; valem também as aspirações culturais.
Quando uma pessoa necessita afirmar-se dentro de seu trabalho ou em seu meio social, os sonhos aparecem marcados por esse anseio. E as forças que lhes são contrárias também entram na “peça”, às vezes de maneira ordenada e facilmente compreensível, mas a maioria das vezes completamente camuflada. Por isso, uma pessoa pode sonhar e lembrar-se que tinha de fazer muito esforço para vencer uma barreira (o objetivo) e que, de repente, estava numa rua deserta, impossibilitada de comunicar-se (adversidades).

AS DEFORMAÇÕES ONÍRICAS - Apesar de o ego ter menos restrições morais no sonho, ainda assim elas se manifestam. As transfigurações que aparecem são prova disso. Se fosse possível fazer uma escala de deformações oníricas, diríamos que, na dependência da censura, elas são tão mais distantes do fato real que representam quanto maior forem as sanções que o indivíduo sofre quando está acordado.
O prolongamento dos “restos diurnos” se liga às lembranças do inconsciente para aparecerem na elaboração dos sonhos. Portanto, o sonho é um “composto” no qual entram os fatores recentes da vida consciente, os do inconsciente remoto e, por vezes, alguns estímulos de origem somática.
Alguns predominam durante a “encenação”, mas nem sempre são os que realmente importam. Nesse caso, a preocupação mais profunda e mais censurada parece não ter importância, pois ficou deslocada e assume um “papel secundário”.
Geralmente, esses deslocamentos estão ligados a problemas afetivos. As necessidades de afeto, que uma pessoa acordada pode dirigir para um animal de estimação ou para a coleção esmerada de certos objetos, podem aparecer em seus sonhos completamente deslocadas. Por vezes pode ser tão “canceladas” da lembrança do sonho que, quando a pessoa vai transmiti-la, passam a ser apenas um ponto obscuro, mas não completamente esquecido.
Dessa maneira, o mecanismo censura a lembrança completa, mas não a elimina. A pessoa não compreende por que aquele assunto aparentemente irrelevante a perturba tanto. As limitações sexuais, por exemplo, podem aparecer tênues, desde que vinculadas a cenas que, no sonho, trazem muita angústia. Se a preocupação é constante, também constantes serão esses tipos de deformações, pois o ego não deixaria que ele mesmo sofresse continuamente. A censura onírica é, portanto, um mecanismo de autodefesa.

MATÉRIA-PRIMA - A maneira de pensar de uma pessoa acordada, suas possibilidades de raciocínio lógico, seus conceitos de tempo e espaço, seu “mundo vivo”, portanto, não dirigem o sonho. Quando num sonho aparece uma pessoa que não se vê há anos, ela entra no cenário onírico sem nenhum estanto para quem está sonhando.
Assim, o que chamamos de inconsciente durante a vigília torna-se o consciente do sonho. As lembranças dos dias imediatamente anteriores podem trazer, durante o sono, algumas ligações com esse “consciente”, que parece não existir durante as atividades de um indivíduo acordado.
Por isso, é muito comum que uma pessoa fique atônita com o desenvolvimento de um sonho, pois imagina que não tem preocupações de um determinado tipo. É como se um sistema de comunicação interno transmitisse à própria pessoa uma mensagem que ela tem resistência em aceitar como sua.
Outro ponto importante é o relacionamento das pessoas com o mundo exterior. Para cada indivíduo, a realidade se apresenta de maneira diversa, de acordo com suas necessidades de sobrevivência. Assim, para várias pessoas, um mesmo objeto ou circunstância pode ter conotações totalmente diversas que dependem diretamente do seu tipo de vida. Mas, inconscientemente,podem implicar por exemplo em necessidades afetivas semelhantes, que vão ser objeto de preocupação durante o sonho. Essa nova realidade passa a ser manuseada de maneira totalmente diferente da vida “acordada”.
Muitas vezes, as pessoas percebem mais nitidamente o caráter de alguém durante o sonho do que na convivência. Mas a opinião contrária que seus amigos possam ter sobre essa pessoa inibe uma aceitação imediata de sua intuição que um contato desinibido poderá comprovar. Assim, no sonho, há um desligamento da realidade e melhor capacidade de aquilatação, embora não perceba de imediato.
No sonho, não é irrelevante. Os ingredientes do sonho são sempre úteis para que o todo possa ser compreensível. Muitas vezes, em processos neuróticos, é de grande valia que todas as coisas tenham uma interpretação. Dela poderá ocorrer uma série de ligações com o comportamento anormal do indivíduo. E, dentro da psicanálise, cada manifestação do paciente é importante. Assim é possível a formação de um quebra-cabeça com todas as peças e o reconhecimento que o indivíduo passa a ter de seus próprios problemas. Os símbolos são “traduzidos” para que se descubram as verdadeiras imagens que estão por trás da camuflagem elaborada pela censura.

Psiquiatria: Retardos Mentais

Para a raposa, na fábula de Esopo, as uvas estavam verdes. Mas para qualquer estudante de psiquiatria de hoje, a raposa estava apenas racionalizando. As lições de Esopo, bem como as de outros fabulistas, ensinaram muito sobre a natureza humana. Mas antes de Freud os mecanismos de defesa contra afetos, instintos e situações reais ainda não haviam sido adequadamente classificados. Os estudos metódicos dos mecanismos de defesa permitiram aos psiquiatras em geral identificar muitos dos fatores ocultos no comportamento dos neuróticos, dos psicóticos e também das pessoas normais. E, por isso, aceita-se hoje, generalizadamente, três grupos de mecanismos de defesa psicológica: os de defesa contra instintos, contra afetos e contra as situações reais do meio exterior.

DEFESA CONTRA INSTINTOS - Basicamente, os mecanismos de defesa constituem os processos através dos quais o ego procura modificar ou suprimir um impulso instintivo originado do inconsciente.
O único mecanismo realmente eficaz, na opinião atual da psiquiatria, é o de sublimação. Nesse processo, o impulso instintivo é modificado pelo ego em impulso socialmente aceitável. O que é aparentemente impuro, torna-se sublime.
O impulso sexual dos sacerdotes pode se manifestar, por exemplo, na auto-flagelação que antigamente se impunham.
A sublimação é tida como um mecanismo eficaz porque absorve a energia do impulso instintivo que, por essa razão, perde a capacidade de produzir outros distúrbios neuróticos.
Todos os demais mecanismos de defesa contra o instinto, por não possuírem essa propriedade da sublimação, são considerados ineficazes e, por isso mesmo, patógenos ou conducentes a processos patológicos, quer neuróticos, quer psicóticos.
1 - A negação. Esse mecanismo aparece nítido nos sonhos. O indivíduo sabe que tal símbolo está associado a uma situação ou que determinada personagem do sonho corresponde a uma pessoa real de suas relações. Mas nega o conhecimento e não permite que a verdade passe do inconsciente para o consciente. Esse mecanismo apresenta outros derivados dele, como se verá em seguida.
2 - A projeção. Um homem que se interessa por certa mulher casada atribui a ela um interesse similar por ele. Dessa forma, nega ou justifica seu próprio interesse. De modo semelhante, o marido que deseja ter relações extraconjugais pode começar a nutrir suspeitas desse tipo em relação a sua própria esposa, acusa-la disso abertamente e, assim, aliviar a ansiedade e justificar o próprio impulso instintivo.
3 - Introjeção-identificação. É mecanismo que precede a etapa edipiana do desenvolvimento. O filho toma o pai como modelo e se “identifica” com ele. Geralmente, a identificação se acompanha de um deslocamento. A atuação viril de uma pessoa leva outro indivíduo a imitar seu andar, simbolizando neste pormenor, toda a intenção de ser igual (idêntico).
A introjeção, em certo aspecto, contrapõe-se à projeção. É o mecanismo de assimilar coisas (situações) externas. É a maneira como sentimos por exemplo, as pessoas que nos rodeiam.
4 - A repressão. Um dos mecanismos derivados da negação e que, como ela, não suprime o teor dinâmico dos impulsos instintivos que acorrenta nos porões do inconsciente. O mecanismo de repressão explica uma das mais conhecidas características das neuroses, que é a reação exagerada.
O homem que teve contrariedades no serviço e, em casa, espanca o filho, por causa de uma travessura banal, fornece bom exemplo. Seus impulsos hostis em relação aos superiores foram reprimidos pelo temor de perder o emprego (insegurança). A descarga de energia, portanto, não foi determinada pela travessura do filho, mas apenas desencadeada por ela. A reação é evidentemente desproporcional, quando julgada efeito da travessura do garoto. Mas é perfeitamente proporcional aos impulsos hostis reprimidos, que o patrão causou.
5 - Formações reativas caracterológicas e cerimonial. É o mecanismo que protege algum aspecto da personalidade contra investigação, própria ou de outrem. Geralmente se manifesta por uma atitude de sentido oposto. O rebelde pode dissimular sua insubmissão com a obediência. O homem que duvida da própria masculinidade de sua vida sexual ou de seu caráter deixará crescer a barba, ou portentoso bigode, para reafirmar virilidade a si próprio ou às outras pessoas.
Também o cerimonial é uma formação reativa que, como as demais, deriva do mecanismo de negação. O homem que torna o hábito do cachimbo um complicado ritual procura impedir o afloramento de impulsos sexuais de caráter oral. O que muda de roupa cerimonialmente antes de deitar-se busca impedir a conscientização de impulsos eróticos. Nos dois casos, o mecanismo consiste em desfigurar a natureza do ato simples para disfarçar a associação inconsciente desse mesmo ato com os impulsos instintivos que o determinam.
6 - Anulação. Aparentemente, um derivado do mecanismo de negação, mas com uma diferença essencial: na negação, os impulsos são repelidos antes de aflorarem à consciência. Na anulação, ao contrário, os impulsos instintivos são negados depois de conscientizados. A mesma diferença vale também, para distinguir a anulação das formações reativas.
Num exemplo típico de anulação, o indivíduo pode passar a proteger uma pessoa depois de, conscientemente, haver sentido impulsos hostis contra ela. Noutro exemplo comum, o indivíduo tenta anular o interesse sexual por uma pessoa, depois de havê-lo notado conscientemente, através de atos de hostilidade e reprovação. Essa última situação poderia ocorrer em ambiente de trabalho, onde um homem casado passa a maltratar a secretária para convencer-se de que não possui interesse especial por ela.
7 - Isolamento. Outra forma de negação. Aqui, o indivíduo tem consciência do impulso e também sabe qual o estímulo que determinou tal impulso. Mas nega a conexão de causa e efeito entre os dois fenômenos. “Imagine. Não foi por causa do dinheiro. É pelo desaforo.” Uma desculpa comum, e comumente falsa. Foi por causa do dinheiro, mesmo.
8 - Regressão. O temor de desaprovação do parceiro em relações sexuais pode levar o indivíduo a evitar o contato normal dos órgãos genitais e regredir a uma fase anterior de desenvolvimento pré-genital. Ou seja, de prazer oral ou anal, o que explicaria muitos casos de homossexualismo.

MECANISMOS CONTRA AFETOS - A rigor, todos os mecanismos descritos constituem defesas contra afetos; os impulsos não são repelidos por usa condição de instintivos, mas por sua propriedade de produzir reações afetivas desagradáveis, como a de se sentir rejeitado.
Para evitar afetos que resultam da elaboração mais complicada de impulsos instintivos, o indivíduo reprime, bloqueia, adia, desloca, substitui, isola, projeta, introjeta, ou racionaliza os afetos da mesma maneira como procede em relação aos impulsos instintivos, mais simples.
Finalmente, o conjunto de mecanismos de defesa abrange também alguns recursos defensivos contra situações reais, do mundo exterior. Desse modo, a negação de fantasia pode constituir um refúgio imaginário contra uma realidade hostil ou angustiante. A fantasia é um anestésico da vida psíquica.
No mecanismo de negação de atos e palavras, o indivíduo procede ativamente no sentido de modificar a situação real.
E, finalmente, no mecanismo de limitação do ego, ocorre o inverso: o indivíduo tende a fugir da situação real. Nega-se a participar de uma discussão que possa evidenciar suas limitações intelectuais ou finge desinteressar-se do sexo, quando na verdade teme sua incapacidade de despertar interesse.

Psiquiatria: Mecanismos de Defesa

Para a raposa, na fábula de Esopo, as uvas estavam verdes. Mas para qualquer estudante de psiquiatria de hoje, a raposa estava apenas racionalizando. As lições de Esopo, bem como as de outros fabulistas, ensinaram muito sobre a natureza humana. Mas antes de Freud os mecanismos de defesa contra afetos, instintos e situações reais ainda não haviam sido adequadamente classificados. Os estudos metódicos dos mecanismos de defesa permitiram aos psiquiatras em geral identificar muitos dos fatores ocultos no comportamento dos neuróticos, dos psicóticos e também das pessoas normais. E, por isso, aceita-se hoje, generalizadamente, três grupos de mecanismos de defesa psicológica: os de defesa contra instintos, contra afetos e contra as situações reais do meio exterior.

DEFESA CONTRA INSTINTOS - Basicamente, os mecanismos de defesa constituem os processos através dos quais o ego procura modificar ou suprimir um impulso instintivo originado do inconsciente.
O único mecanismo realmente eficaz, na opinião atual da psiquiatria, é o de sublimação. Nesse processo, o impulso instintivo é modificado pelo ego em impulso socialmente aceitável. O que é aparentemente impuro, torna-se sublime.
O impulso sexual dos sacerdotes pode se manifestar, por exemplo, na auto-flagelação que antigamente se impunham.
A sublimação é tida como um mecanismo eficaz porque absorve a energia do impulso instintivo que, por essa razão, perde a capacidade de produzir outros distúrbios neuróticos.
Todos os demais mecanismos de defesa contra o instinto, por não possuírem essa propriedade da sublimação, são considerados ineficazes e, por isso mesmo, patógenos ou conducentes a processos patológicos, quer neuróticos, quer psicóticos.
1 - A negação. Esse mecanismo aparece nítido nos sonhos. O indivíduo sabe que tal símbolo está associado a uma situação ou que determinada personagem do sonho corresponde a uma pessoa real de suas relações. Mas nega o conhecimento e não permite que a verdade passe do inconsciente para o consciente. Esse mecanismo apresenta outros derivados dele, como se verá em seguida.
2 - A projeção. Um homem que se interessa por certa mulher casada atribui a ela um interesse similar por ele. Dessa forma, nega ou justifica seu próprio interesse. De modo semelhante, o marido que deseja ter relações extraconjugais pode começar a nutrir suspeitas desse tipo em relação a sua própria esposa, acusa-la disso abertamente e, assim, aliviar a ansiedade e justificar o próprio impulso instintivo.
3 - Introjeção-identificação. É mecanismo que precede a etapa edipiana do desenvolvimento. O filho toma o pai como modelo e se “identifica” com ele. Geralmente, a identificação se acompanha de um deslocamento. A atuação viril de uma pessoa leva outro indivíduo a imitar seu andar, simbolizando neste pormenor, toda a intenção de ser igual (idêntico).
A introjeção, em certo aspecto, contrapõe-se à projeção. É o mecanismo de assimilar coisas (situações) externas. É a maneira como sentimos por exemplo, as pessoas que nos rodeiam.
4 - A repressão. Um dos mecanismos derivados da negação e que, como ela, não suprime o teor dinâmico dos impulsos instintivos que acorrenta nos porões do inconsciente. O mecanismo de repressão explica uma das mais conhecidas características das neuroses, que é a reação exagerada.
O homem que teve contrariedades no serviço e, em casa, espanca o filho, por causa de uma travessura banal, fornece bom exemplo. Seus impulsos hostis em relação aos superiores foram reprimidos pelo temor de perder o emprego (insegurança). A descarga de energia, portanto, não foi determinada pela travessura do filho, mas apenas desencadeada por ela. A reação é evidentemente desproporcional, quando julgada efeito da travessura do garoto. Mas é perfeitamente proporcional aos impulsos hostis reprimidos, que o patrão causou.
5 - Formações reativas caracterológicas e cerimonial. É o mecanismo que protege algum aspecto da personalidade contra investigação, própria ou de outrem. Geralmente se manifesta por uma atitude de sentido oposto. O rebelde pode dissimular sua insubmissão com a obediência. O homem que duvida da própria masculinidade de sua vida sexual ou de seu caráter deixará crescer a barba, ou portentoso bigode, para reafirmar virilidade a si próprio ou às outras pessoas.
Também o cerimonial é uma formação reativa que, como as demais, deriva do mecanismo de negação. O homem que torna o hábito do cachimbo um complicado ritual procura impedir o afloramento de impulsos sexuais de caráter oral. O que muda de roupa cerimonialmente antes de deitar-se busca impedir a conscientização de impulsos eróticos. Nos dois casos, o mecanismo consiste em desfigurar a natureza do ato simples para disfarçar a associação inconsciente desse mesmo ato com os impulsos instintivos que o determinam.
6 - Anulação. Aparentemente, um derivado do mecanismo de negação, mas com uma diferença essencial: na negação, os impulsos são repelidos antes de aflorarem à consciência. Na anulação, ao contrário, os impulsos instintivos são negados depois de conscientizados. A mesma diferença vale também, para distinguir a anulação das formações reativas.
Num exemplo típico de anulação, o indivíduo pode passar a proteger uma pessoa depois de, conscientemente, haver sentido impulsos hostis contra ela. Noutro exemplo comum, o indivíduo tenta anular o interesse sexual por uma pessoa, depois de havê-lo notado conscientemente, através de atos de hostilidade e reprovação. Essa última situação poderia ocorrer em ambiente de trabalho, onde um homem casado passa a maltratar a secretária para convencer-se de que não possui interesse especial por ela.
7 - Isolamento. Outra forma de negação. Aqui, o indivíduo tem consciência do impulso e também sabe qual o estímulo que determinou tal impulso. Mas nega a conexão de causa e efeito entre os dois fenômenos. “Imagine. Não foi por causa do dinheiro. É pelo desaforo.” Uma desculpa comum, e comumente falsa. Foi por causa do dinheiro, mesmo.
8 - Regressão. O temor de desaprovação do parceiro em relações sexuais pode levar o indivíduo a evitar o contato normal dos órgãos genitais e regredir a uma fase anterior de desenvolvimento pré-genital. Ou seja, de prazer oral ou anal, o que explicaria muitos casos de homossexualismo.

MECANISMOS CONTRA AFETOS - A rigor, todos os mecanismos descritos constituem defesas contra afetos; os impulsos não são repelidos por usa condição de instintivos, mas por sua propriedade de produzir reações afetivas desagradáveis, como a de se sentir rejeitado.
Para evitar afetos que resultam da elaboração mais complicada de impulsos instintivos, o indivíduo reprime, bloqueia, adia, desloca, substitui, isola, projeta, introjeta, ou racionaliza os afetos da mesma maneira como procede em relação aos impulsos instintivos, mais simples.
Finalmente, o conjunto de mecanismos de defesa abrange também alguns recursos defensivos contra situações reais, do mundo exterior. Desse modo, a negação de fantasia pode constituir um refúgio imaginário contra uma realidade hostil ou angustiante. A fantasia é um anestésico da vida psíquica.
No mecanismo de negação de atos e palavras, o indivíduo procede ativamente no sentido de modificar a situação real.
E, finalmente, no mecanismo de limitação do ego, ocorre o inverso: o indivíduo tende a fugir da situação real. Nega-se a participar de uma discussão que possa evidenciar suas limitações intelectuais ou finge desinteressar-se do sexo, quando na verdade teme sua incapacidade de despertar interesse.

Psiquiatria: Excitantes

Autoridades policiais, governos e autoridades sanitárias de todo o mundo demonstram preocupação cada vez maior com a generalização do uso de produtos tóxicos. Exploradores do vício, bem organizados, exercem a sua maléfica atividade, desencaminhando meninos e meninas, em portas de colégios, iniciando-os no vício. Os traficantes ganham verdadeiras fortunas, enquanto destroem a vida de milhares de pessoas, que se tornam dependentes dos tóxicos. A maioria dos colegiais consegue safar-se, fugindo dos marginais e negando-se “às experiências”. Mas alguns, principalmente aqueles que têm problemas mais sérios de relacionamento com a família ou com a sociedade, tornam-se escravos do vício.
No vasto quadro de drogas e produtos tóxicos, surgem com destaque os estimulantes do sistema nervoso central. Estes podem agir sobre o córtex cerebral, sobre o bulbo que é a parte do encéfalo que controla a vida vegetativa - respiração, batimentos cardíacos e outros - ou sobre as estruturas nervosas da medula. As drogas não agem exclusivamente sobre cada uma dessas três partes do sistema nervoso central, ao contrário, elas têm efeito sobre todo o SNC. Mas, como sua ação é mais forte em um daqueles três setores, a divisão é feita para indicar sua ação predominante - ou seja, qual a parte do sistema nervoso central mais afetada.
Experiências demonstraram que as mais importantes, sob o ponto de vista médico, são as drogas cuja ação predominante atinge o córtex cerebral. Estas drogas são mais perigosas porque podem, às vezes, induzir um estado agradável, desenvolvendo uma toxicomania. Por outro lado, verificou-se que as drogas que apresentam efeitos mais pronunciados nos outros setores - bulbo e medula espinhal - não criam dependência, mas, ao contrário, apresentam ação oposta, porque criam desprazer em seu mecanismo de ação.
Há dois pontos fundamentais que caracterizam a instalação de uma dependência de estimulantes. Os efeitos da droga, ou seja, as modificações psicofisiológicas reais e as necessidades da personalidade do paciente.
A combinação desses dois estados pode resultar em efeitos muito agradáveis, no caso de serem usados estimulantes-eufóricos. Para se criar uma dependência, ou necessidade inadiável dos excitantes, o paciente precisa apresentar tendências pessoais ao vício. Essas tendências, para se fixarem, precisam de ambiente favorável. Se a pessoa estiver afastada dos meios de fornecimento e uso dos excitantes, mesmo que tenha certa tendência, provavelmente não adquirirá o vício. Estados de grandes frustrações, depressões ou angústia, podem levar o indivíduo “a experimentar só uma vez...”, podendo acabar vítima do vício que lhe destruirá corpo e mente.

ACELERAÇÃO - Os efeitos básicos dos excitantes são a aceleração e o incremento das atividades psíquicas e físicas. As idéias fluem mais rapidamente, ocorre um aumento na “produção do pensamento”, o raciocínio se torna mais ágil, lembrando os sintomas que são encontrados nos portadores de psicose maníaco-depressiva, em sua fase de excitação (mania).
Ao mesmo tempo, os excitantes afugentam o sono. Por essa razão, são utilizados quase habitualmente por motoristas que viajam à noite, por estudantes nas épocas de exame e outros profissionais de vida noturna. O homem acostumado a trabalhar oito horas por dia poderá lançar mão dos excitantes para suportar o trabalho durante períodos mais longos.
Outro efeito procurado no uso dos estimulantes é a mudança do estado de ânimo, provavelmente a situação básica no desencadeamento da toxicomania. As drogas excitantes têm a capacidade de combater a depressão psíquica e atuam como estimulantes de grande poder. O grupo principal de tais substâncias compreende as aminas simpaticomiméticas. Cada toxicômano, de acordo com suas preferências pessoais, com o custo do produto ou a facilidade em consegui-lo, tem preferência por um ou por outro tipo existente no mercado. Os simpaticomiméticos também são capazes de diminuir a sensação de fome. Por isso, alguns deles são usados, a critério médico, nos programas de redução da obesidade.
Há algum tempo, os excitantes tinham aplicação médica no combate a estados depressivos. Atualmente, porém, com o aparecimento de drogas específicas antidepressivas, sem os efeitos danosos dos simpaticomiméticos, estes perderam praticamente toda sua indicação médica. As drogas excitantes que agem predominantemente sobre o córtex cerebral encontram indicações muito limitadas e precisas em medicina. Alguns medicamentos específicos usados para combater crises de epilepsia deixam o paciente em estado de grande sonolência. Os estimulantes do córtex são, nesses casos, receitados para combater essa sonolência.
Nos tratamentos de obesidade, alguns produtos dessa ordem podem reduzir a sensação de fome juntamente com o tratamento global de combate à obesidade. Porém, mesmo esse uso oferece riscos de instalação da toxicomania.

REALIZAÇÃO E INDEPENDÊNCIA - Embora sejam altamente danosas as drogas simpaticomiméticas, não chegam a apresentar as conseqüências dos chamados “tóxicos maiores”, como por exemplo a morfina e heroína. Isso porque a dependência de excitantes não se cria com tanta facilidade.
A estrutura da personalidade e o ambiente do indivíduo são fundamentais. Assim, quando pessoas que se sentem irrealizadas experimentam um excitante, encontrando o estado de plenitude pelo qual anseiam e livrando-se, ainda que temporariamente, da angústia, depressão e frustrações, abrem a porta para se transformarem em toxicômanos.
Essa forma de toxicomania é encontrada principalmente em jovens, justamente devido à sua ação. Os simpaticomiméticos não chegam a provocar a euforia, como os tóxicos maiores, cujo padrão é a morfina. Mas provocam um estado de excitação, contribuindo para facilitar as tarefas psíquicas e mesmo físicas. Isso é muito importante para os jovens, que estão vivendo como que “ao sabor das ondas”, conduzidos, compelidos e guiados por uma estrutura que não conseguem entender nem aprovar. Os excitantes lhes dão autoconfiança para tomar atitudes diante das quais, em condições normais, vacilariam. Claro que nem todos tornam-se dependentes. Um estudante em exames, por exemplo, pode deixar de usar as drogas assim que passe o período das provas. Outros, porém, ficam presos aos efeitos dos medicamentos, tornam-se toxicômanos. Depois de algum tempo, começarão a consumir doses maiores, passarão para o uso de outros tipos de tóxicos, indo aumentar as fileiras da legião de viciados que perambulam pelas ruas em busca da droga de que necessitam. E, para consegui-la, usam todos os recursos.

FIM - Instalado o vício, o corpo do paciente entra em fase de depauperação, pela falta do repouso e de alimentação. Durante o efeito da droga está bem. Depois aparece uma depressão ainda maior do que a que motivara a procura da fuga através do excitante. O viciado tem um aspecto geral de abatimento e prostração, é irritadiço, por vezes violento e emagrece rapidamente. Algumas vezes, depois do consumo da droga, a excitação se torna excessiva, levando a um descontrole. O toxicômano pode, por exemplo, estar altamente estimulado sexualmente e mostrar-se incapaz da realização do ato sexual. Com alguma freqüência, surgem alucinações visuais e auditivas. O toxicômano cai em um círculo vicioso. As doses habituais da droga já não surtem efeitos. Consomem quantidades cada vez mais fortes, para chegarem ao estado eufórico. A depressão reaparece, agravada, a cada vez que passa o efeito de uma dose. Tenta novamente usar doses maiores, muda para outras drogas, inventa misturas.
O tratamento consiste na supressão das drogas e, principalmente, no reconhecimento do problema psíquico que abriu campo para o vício e sua eliminação, o que sempre é tarefa difícil e a longo prazo.

Psiquiatria: Desvios Sexuais

Aceitando-se as principais teorias psicanalíticas, segundo as quais toda a vida da pessoa gira em torno das situações antagônicas prazer - desprazer e que o desenvolvimento da personalidade se faz fundamentalmente em torno da libido, torna-se fácil compreender as atividades sexuais como formas de manifestação da personalidade.
Por essa mesma razão, muitas vezes o ato sexual deixa de ser natural, embora se mantenha heterossexual - isto é, praticado por indivíduos de sexos diferentes. O item dos desvios sexuais constitui um dos capítulos mais extensos da psiquiatria e, por esta razão, está dividido em diversas partes.
As denominações perversões sexuais ou aberrações sexuais vêm sendo aos poucos abandonadas, porque trazem em si uma idéia de moral e de ética que prejudica a conceituação estritamente científica do problema.
Provavelmente, também, o termo desvio, depois de cair no domínio público, passará a ser usado com sentido moral e ético, sofrendo o mesmo fenômeno ocorrido com as palavras perversão e aberração. O capítulo dos desvios, de qualquer forma, abrange um vasto campo de comportamentos sexuais que se afastam dos conceituados como normais.

NORMAL OU ANORMAL? - As dificuldades começam na falta de limites muito definidos entre o que se considera normal ou anormal, salvo nos casos extremos. De um lado, a prática sexual legítima, dedicada e harmônica. E, de outro, o encontro patológico, doentio.
O conceito puramente estatístico dos hábitos sexuais não é suficiente para determinar o que são atitudes normais ou anormais. Nem sempre o mais comum é o normal ou o correto. Isso fica claro quando se analisa a situação da mulher. Até há alguns anos, era mais comum a ausência de prazer para a mulher no ato sexual. Era normal, então, a mulher apenas servir ao homem e sujeitar-se à procriação.
Outra dificuldade - ainda maior do que a anterior - é a de estabelecer, no ato ou no comportamento sexual global, se uma conduta aparentemente normal é realmente normal. Ocorre que, mesmo na união heterossexual e pelas formas reconhecidas como normais e corretas, os indivíduos podem não ter como objetivo principal do encontro de prazer a realização sexual. Ou então aliam à realização sexual outras finalidades, como, por exemplo, a de subjugar o parceiro ou a parceira, para dominar e vencer. Esse tipo de comportamento, no qual a pessoa busca outros resultados que não somente o prazer na união, é também classificado como desvio, muito embora formalmente seja considerado correto.
Por aí se verifica como é difícil, senão mesmo impossível, estabelecer um critério geral que seja realmente válido para definir a sexualidade normal. Contudo, é possível apresentar alguns conceitos e colocar em discussão os desvios mais comuns e que caracterizam a situação anormal.
Evidentemente, a primeira exigência da sexualidade normal é a de que seja praticada por duas pessoas de sexos opostos. Mas isso não é garantia bastante para se ter uma união normal. No encontro heterossexual, o fim almejado é o orgasmo, o prazer. E isso estabelece mais uma condição: a busca da situação prazerosa tem de ser harmônica, realmente a dois. Como uma das poucas regras absolutas, deduz-se do exposto que todo o comportamento sexual que não integre dois indivíduos de sexos diferentes é anormal.

SOLIDÃO A DOIS - Analisando-se os casos de amor a dois, inicialmente normais, é freqüente encontrar muitas situações anormais, em exames mais profundos e detalhados. Quando se estabelece a ligação entre um homem e uma mulher apenas com o sentido de “presença física”, um deles ignora o outro ou ambos se ignoram reciprocamente. Nesses casos, a conduta de cada um é idêntica à conduta solitária. O parceiro ou parceira participa apenas como uma espécie de objeto. E, paradoxalmente, o ato é solitário, embora a dois.
Pode-se entender, então, porque o comportamento sexual normal, por ser de um casal, é condição tão estrita, já que o conceito de prazer, de individual, passa a ser comum ao par.
Os psiquiatras sabem como é difícil encontrar um casal perfeitamente adaptado e preocupado com a busca do prazer para ambos os cônjuges. Isto porque a frigidez da mulher é bastante comum. E como a frigidez impossibilita a harmonia, o ato sexual torna-se anormal. O que não significa, obviamente, que exista no caso uma perversão ou aberração sexual. Por sua vez, o homem que nem sempre se preocupa com a situação da mulher concorre para a permanência da anormalidade.
Esmiuçando-se ainda mais a situação, conclui-se que, para o encontro ser normal, o par terá de obter prazer no ato sexual. Deverá existir entre ambos a harmonia, o entendimento e a dedicação, ou seja, o amor. Isto significa que muitas vezes o casal encontra o prazer físico nascido de uma fonte diferente, que não a do amor.

OS LIMITES IMPRECISOS - Deve-se ressaltar, mais uma vez, como é complexo estabelecer um conceito geral das atividades normais ou anormais, durante o ato sexual. As liberdades e intimidades são válidas, em seu sentido mais amplo, desde que não constituam violência ou constrangimento para nenhum dos dois. Ao contrário, deverão ser aceitas ou desejadas por ambos. Qualquer ato preliminar forçado produz sentimentos de culpa ou de medo. Assim, tais liberdades e intimidades somente são legítimas na medida em que constituem preparativos para a plena realização do ato. Se forem isoladas ou surgirem após o encontro, são qualificadas de anormais.
É importante manter consciente que a realização sexual plena escapa ao sentido meramente instintivo, físico. São também elementos básicos os componentes psicológicos. O ato sexual é o resultado de motivações biológicas, psicológicas e sociais.
Freud classificou as condutas sexuais anormais em indivíduos que tem objeto sexual anormal. Neste caso estão enquadrados os homossexuais, os que buscam animais para a prática sexual (bestialidade), os que se utilizam de indivíduos impúberes ou os que utilizam outras partes do corpo como objeto ou meio sexual.
Também os sadistas, os masoquistas e os fetichistas são incluídos entre os tipos de conduta anormal. Os fetichistas encontram prazer em objetos, mormente do vestiário feminino, para os homens. Geralmente são peças íntimas diante das quais os indivíduos se sentem altamente excitados.
Todas essas condutas tornam-se mais patológicas quanto mais forem acentuadas, na proporção direta em que passam a ser mais importantes do que a realização sexual normal e plena. Dessa forma, verifica-se que mesmo as condições de anormalidade são diferentes entre si, havendo não só as graduações dos desvios, mas também um sentido diferente conforme o meio e outras circunstâncias.
A bestialidade, no meio rural, onde há o contato permanente com animais e, ao mesmo tempo, dificuldades para o encontro de um parceiro sexual, é diferente da bestialidade em outras condições, nas quais os indivíduos preferem e escolhem os animais porque estão exclusivamente motivados para a realização sexual por essa forma.
Além dos objetos anormais, existem os fins sexuais anormais. É o caso, por exemplo, das pessoas que se fixam na preparação preliminar, encerrando aí seu interesse, sem a realização do ato sexual.

Psiquiatria: Barbitúricos

Acreditam os psiquiatras que o meio de autodestruição escolhido pelos suicidas mostra-se muitas vezes relacionado com as causas que levam a pessoa a buscar a morte. Segundo essa corrente, os barbitúricos seriam preferidos pelos suicidas que chegam ao gesto extremo devido a choques violentos com o meio em que vivem. A morte, nesses casos, não visaria a destruição como solução isolada, mas teria um sentido mais amplo, de reivindicação, de protesto, de assumir uma posição ou afirmar algo de maneira irretorquível.
Algumas pessoas que se utilizam de barbitúricos para por fim à vida apresentam, como traço fundamental de personalidade, as manifestações de cunho histérico. Essa teoria geral não significa que todos os suicidas que empregam barbitúricos se enquadram naquelas características de afirmação, reivindicação ou protesto. Há casos, mais raros, onde a finalidade principal é a morte, como processo de fuga.
Os barbitúricos têm ação sobre o sistema nervoso central e são depressores, geralmente usados como soníferos. Quando ingeridos em quantidades elevadas, podem desencadear a morte, principalmente se não houver socorro dentro das primeiras duas horas. Esse tempo também é variável, dependendo muito do tipo de barbitúrico utilizado - se pertence ao grupo de efeito rápido ou ao grupo dos de ação mais lenta.

OCORRÊNCIA DA TOXICOMANIA - Os barbitúricos são, também, usados por toxicômanos para atender seu vício. No estudo das toxicomanias tem muito mais importância o exame do próprio viciado do que da droga usada para a satisfação do vício. Não obstante o elevado número de produtos de ação excitante ou depressora, e a diversidade de ação de cada um deles, o fundamental é a análise da personalidade do viciado. O tipo de droga é secundário.
Há um grupo de substâncias muito ativas, capazes de determinar o aparecimento de uma toxicomania - principalmente os derivados do ópio -, relacionado pela Organização Mundial de Saúde. O uso dessas substâncias é vigiado rigorosamente, porque elas podem estabelecer uma dependência em qualquer pessoa que as use constantemente.
Os barbitúricos não fazem parte desse grupo. São usados pelos toxicômanos isoladamente ou em mistura com outras drogas. Em outras oportunidades, são utilizados como substitutos das drogas tóxicas tidas como de primeira linha. Os barbitúricos são hipnóticos por excelência. Os viciados em seu consumo são muito irritáveis, estão freqüentemente mal-humorados e quase sempre têm repentes explosivos contra o ambiente. Essas manifestações têm dupla origem. De um lado são ditadas pela tendência da pessoa para a irritabilidade, de outro decorrem da diminuição da lucidez, embotada pela droga que, sendo hipnótica, prejudica o nível de consciência. Os padrões afetivos e morais são alterados, uma vez que os viciados passam a supervalorizar a droga, cuja importância se torna maior, para eles, do que a da própria família, princípios morais e todo o resto.
Para obter satisfação de sua necessidade o toxicômano não reluta em mentir, engodar, criar subterfúgios, inventar dramas. Sente forte compulsão a vencer todas as dificuldades para a obtenção do barbitúrico. Se a mentira ajudar - e geralmente ajuda -, recorre a ela sem o menor constrangimento. O uso da droga provoca diminuição da capacidade geral do indivíduo. Sua atuação sobre a consciência faz que todo o processo de percepção e atenção fique diminuído. Isso dificulta a ambientação. Aliado à diminuição de rendimento físico, esse alheamento parcial torna muito difícil a convivência do toxicômano com os demais. Cria-se uma hostilidade que é mantida e ampliada, em círculo vicioso. O toxicômano tenta a aproximação, mas realmente não tem condições para realiza-la. Daí surgem as divergências e o afastamento. Ele se sente repudiado e tenta a reaproximação, ampliando cada vez mais o processo.
O uso do barbitúrico, nessas fases, pode provocar alguns acidentes, fruto do estado de confusão mental, onde predomina a agitação, com manifestações delirante-alucinatórias. Há alucinações visuais e persistentes, em geral com sentido terrificante. Esse estado é produzido por deficiências nutricionais e carências múltiplas, aliadas ao comprometimento psíquico. A linguagem se torna quase incompreensível, o doente “enrola” a língua, fala com lentidão, ainda que os sinais de excitação sejam bem visíveis.

VÍCIO E SUJEIÇÃO - Como ocorre com todas as outras substâncias que provocam a toxicomania, a supressão repentina dos barbitúricos provoca nos pacientes reações psicopatológicas muito fortes, formando o quadro denominado “síndrome de abstinência”. Em prazos variáveis entre 24 e 72 horas, aparecem os tremores, ansiedade muito intensa, suores abundantes, tendência à diminuição da pressão sangüínea e aceleração dos batimentos cardíacos. Costumam aparecer também crises de convulsões, como complicação desse quadro. Nos viciados em barbitúricos, as convulsões aparecem com mais freqüência do que nos consumidores de outras drogas, porque os barbitúricos interferem diretamente na sincronia cerebral. Por essa razão, são empregados como medicação em tratamento de crises convulsivas epiléticas. Esta é uma situação paradoxal, pois a pessoa enquanto usa barbitúricos está protegida contra as convulsões, por efeito da própria droga. Após três a sete dias da suspensão dos barbitúricos, aparecem manifestações delirante-alucinatórias. A angústia aumenta, bem como a inquietação, diante das alucinações predominantemente visuais e auditivas.
O efeito mais marcante em toda a situação patológica dessas pessoas dependentes dos barbitúricos é o alto grau de ansiedade e insônia. Esta, particularmente, pode ter sua instalação facilitada. Inicialmente, as pessoas poderiam ter dificuldade em conciliar o sono, razão pela qual, à certa altura, passaram a usar os hipnóticos. Depois de instalada a dependência, se as pessoas são levadas a lutar contra o vício e suspender o consumo desse indutor do sono, o mecanismo sono-vigília se desregula com muita facilidade. O estado de ansiedade contribui para agravar ainda mais o problema, e trava-se terrível luta no íntimo do indivíduo, que se sente tentado a recomeçar o uso das drogas. Por outro lado, cria-se uma resistência muito forte a todos os outros medicamentos, que não sejam barbitúricos, empregados para combater a insônia. Isso se explica pelo fato de haver aumentado a resistência orgânica ao mecanismo indutor do sono.

DEPAUPERAMENTO - Como manifestação da intoxicação crônica por barbitúricos, aparecem numerosas alterações físicas. Instala-se um depauperamento progressivo, que decorre principalmente da falta de apetite e da conseqüente carência de elementos vitais. Aparecem também importantes alterações cutâneas. A pele mostra extensas manchas vermelhas, semelhantes à escarlatina. Com muita freqüência, a febre acompanha esses sintomas. Instala-se ainda um mal-estar geral, o que muitas vezes provoca confusões diagnósticas, deixando idéia de doenças infecciosas. Dependendo do metabolismo - processamento de assimilação orgânica - que sofre o barbitúrico, podem ser encontradas alterações no sistema hepático. Isso dependerá principalmente da maior ou menor participação do fígado no processo de metabolização da droga.
Os barbitúricos são largamente usados por pessoas que têm trabalho noturno e precisam dormir de dia. Para resistir ao sono lançam mão de excitantes. Terminada a jornada, quando chegam ao limiar da manhã, não conseguem conciliar o sono. Para vencer essa resistência, procuram compensar o emprego anterior de excitantes, usando então barbitúricos. Dessa forma, realizam um “balanço” que compreende o consumo de excitantes à noite, para mantê-los ativos durante o trabalho, e o uso de barbitúricos pela manhã, para anular os efeitos dos excitantes.

Psiquiatria: Toxicômano

Qualquer indivíduo pode encontrar facilidades para se tornar um toxicômano, mas jamais ficará dependente dos efeitos da droga se não tiver, internamente, as condições psíquicas de um viciado.
Quando se procura determinar as características do comportamento do toxicômano, um fato imediatamente salta aos olhos. É a sua falta de sociabilidade. Por trás do contato imediato e superficial - que chega a impressionar pelo calor humano que transmite - encontra-se uma frieza social grave e constante. A simpatia aparente é apenas encarada como uma das possibilidades de que se serve o viciado para resolver o seu problema básico. Enquanto uma pessoa puder ser útil para a solução das dificuldades encontradas, estabelece-se uma situação de boas relações e até de estreitamento de laços afetivos. Basta, porém, desaparecer a utilidade do amigo para que tal relação seja abandonada sem o menor constrangimento.
Nisso tudo, um fato pode parecer paradoxal. É o aparecimento de uma ligação e proteção verdadeiramente estreitas entre os toxicômanos, que se auxiliam mutuamente e jamais denunciam seus companheiros de vício. Para que se compreenda tal “afetividade” é preciso que se verifique, por trás dela, o objetivo extremamente egoístico de proteção. A proteção mútua é, a rigor, protecionismo do próprio indivíduo no que diz respeito à obtenção das drogas e no fortalecimento da luta destes indivíduos contra a sociedade ameaçadora e restritiva. Formada a “panela”, a indiferença com relação às pessoas que não pertencem ao grupo é então facilmente vista como uma atitude anti-social.
Reagindo diante das medidas restritivas à satisfação prazerosa por eles procurada, os toxicômanos desenvolvem atitudes contra o meio em que vivem. Justamente por isso, tal revolta deve ser sempre encarada como secundária a alguma proibição ou limitação. O sentimento básico é sempre o de ausência de afetos fraternais. Os grupos só se formam quando existe e enquanto perdura um fim comum a ser desenvolvido e defendido.

EGOCENTRISMO - O que predomina no viciado, portanto, é uma tendência egocêntrica. A satisfação é encontrada na própria pessoa que, então, não se liga a nada que é exterior porque encontra sempre um prazer narcísico.
A vontade de tais pessoas é então posta a serviço dessa satisfação narcísica, registrando-se uma procura permanente de imobilidade ou indiferença diante das situações externas. E, quando, por algum motivo, a satisfação íntima é prejudicada por limitações exteriores, então o viciado se volta contra o mundo e passa a lutar contra ele. Sua atuação poderá ser nitidamente anti-social ou, ao contrário, extremamente cativante para obter os fins almejados.
O estado básico de humor é geralmente oscilante. Predomina quase sempre um fundo de angústia cortado por reações de irritabilidade e impulsos coléricos. Os estados afetivos são instáveis, da mesma forma que toda a conduta.
No estudo do toxicômano devem ser levados em consideração os dois fatores mais importantes em jogo: de um lado as respostas do uso da droga e, de outro, as respostas da própria personalidade em exame. Assim, a euforia comumente encontrada é condição que tanto pode ser atribuída aos efeitos do tóxico como à reação do próprio viciado. Certas drogas, especialmente as do grupo dos opiáceos, desenvolvem nas primeiras fases da intoxicação um intenso estado eufórico. A pessoa vive um intenso bem-estar, cessando por completo a angústia que experimentava. Chega mesmo a encontrar uma nova maneira de se relacionar com o mundo, selecionando só experiências e percepções agradáveis enquanto abafa todas as demais.
Nem todas as drogas e nem todos os viciados desenvolvem intensamente esse “paraíso”. Acredita-se, porém, que todas as dependências toxicomaníacas se desenvolvem na base da lembrança de situações eufóricas passadas. O bem-estar e a seleção das impressões felizes é que mobiliza todo o interesse para a repetição da experiência. A imaginação sofre um processo de enriquecimento; desliga-se das limitações da realidade e o indivíduo passa a constituir o centro de toda a felicidade.
Freqüentemente esta situação é acompanhada por colorido erótico, presente mais num plano fantasioso e de construções mentais do que tendente à realização concreta. Durante a fase eufórica da intoxicação, os viciados vivem verdadeiro sonho onde a inspiração encontra livre trânsito.
Essa possibilidade de liberar a fantasia tem fundamental importância na atividade do toxicômano. Explica até o requinte com que certos grupos de viciados cercam o consumo da droga; especialmente os que utilizam maconha procuram colocar-se num ambiente confortável e semi-escuro que propicie a liberação.
A euforia assim desenvolvida assemelha-se a um sonho, durante o qual o indivíduo se fecha em si mesmo, para organizar sua atividade mental movida pelo princípio do prazer. Qualquer interrupção, ou tentativa de abrir diálogo, provoca imediata irritação. Mas, para prejudicar todo esse processo, que parece iludir facilmente a angústia e a realidade, começam a desenvolver-se outras manifestações.

A TOLERÂNCIA - Uma dessas manifestações, mais ligada ao tóxico do que ao viciado, é a tolerância à droga. Em síntese, consiste na necessidade de utilizar doses crescentes para obter os mesmos efeitos. O aumento da droga é totalmente irregular, sem qualquer relação entre quantidades e períodos de tempo. O tóxico deve ser sempre tomado numa “faixa útil”, para evitar o perigo de não alcançar os efeitos desejados; ou, pior ainda, ingerir uma superdosagem que, além de não ser útil, provoca manifestações desagradáveis.
A necessidade de encontrar esse equilíbrio de dosagem provoca no toxicômano mais outra angústia: a dúvida de ter ou não usado uma dose que propicie o efeito desejado. Com o aparecimento da tolerância, chega a doses verdadeiramente incríveis que, se ingeridas por uma pessoa não acostumada a tóxicos, provocariam a morte.
Fato interessante é que, feita a desintoxicação numa clínica especializada, a tolerância retorna ao mínimo e o viciado volta a reagir com pequenas doses.

A DEPENDÊNCIA - Outro aspecto ligado à droga é a dependência: ligação duradoura e escravizante do indivíduo em relação ao tóxico.
A mesma droga que liberta o indivíduo na angústia, prende-se ao vício. Esta dependência se torna tão importante e central que o indivíduo passa a viver em função dela. A necessidade de satisfaze-la obriga o toxicômano a fazer “qualquer negócio”, quase sempre prejudicial à sua pessoa, para conseguir a droga.
A falta da substância (abstinência) caracteriza-se pela aparição mais ou menos súbita de vários sintomas. Iniciam-se entre 12 e 72 horas e apresentam nuanças variáveis tanto no tipo de sintoma como na sua intensidade. O quadro central é caracterizado por tremores, espasmos musculares mais ou menos amplos, insônias, excitação e uma ansiedade brutal.
Geralmente ocorre algumas complicações física, sendo mais freqüentes as infecções do aparelho digestivo ou pulmonar (broncopneumonia) que agravam ainda mais o estado geral. Com as atuais possibilidades terapêuticas, é possível controlar e mesmo diminuir a gravidade dessas manifestações.
Tudo, porém, depende do tipo de droga em uso (morfina e similares são as de conseqüências mais graves), do estado físico geral do indivíduo e, como conseqüência dos dois primeiros, a instalação paralela de um dos quadros infecciosos já citados.

Psiquiatria: Narcisismo

Narciso, filho da ninfa Liríope e do rio Cefisso, teve seu destino vaticinado por Tirésias: haveria de morrer quando visse a própria imagem. A profecia se cumpriu quando Narciso se viu refletido na água de uma fonte da floresta. Imediatamente perdeu-se de amor pela própria beleza e, de tão embevecido, nunca mais pode abandonar o local. De seu corpo nasceram raízes e seu rosto se transformou numa flor, a que leva seu nome até hoje.
Essa lenda inspirou o termo psiquiátrico narcisismo, que Nacke empregou em 1889 para designar a atitude da pessoa que toma seu próprio corpo como objeto de seu interesse sexual. Freud adotou o termo em sentido mais amplo para complementar sua teoria da libido. Narcisismo, para Freud, designava a transferência da libido para o ego, em vez de objetos do mundo exterior.
Do ponto de vista puramente genético (isto é, de raiz instintiva), o narcisismo caracteriza a pessoa enamorada por si mesma. Nesse sentido restrito, o termo só poderia ser aplicado a um número muito limitado de pessoas. E o significado biológico envolve necessariamente a idéia de contemplação do próprio corpo, o que faz pensar na bruxa de Branca de Neve e nos halterofilistas diante do espelho.
Mas, na clínica psiquiátrica, a acepção de narcisismo é muito mais ampla e discutível. Narcisismo tem sido empregado para designar manifestações mais sutis de interesse voltado para a própria pessoa. Abrange, assim, qualquer preocupação excessiva com relação à própria saúde ou com a aparência pessoal, desejo angustioso de realizações, desinteresse acentuado em relação a outras pessoas (exceto a preocupação em fazer-ser amado, o que significa o desejo de “contagiar” o mundo com o amor por si mesmo).
Como se vê, o narcisismo envolve uma hipertrofia do ego, e portanto caracteriza uma forma de egoísmo e egocentrismo. Em geral, a personalidade narcísica assume exteriorizações de dominação e imposição de vontade. Quando disciplinada, essa tendência à auto-afirmação pode ser canalizada para realizações efetivas, sobretudo como liderança política e religiosa. Napoleão, Hitler, César e grandes líderes religiosos servem de exemplo para esse tipo de personalidade narcísica, embora outros traços de caráter desempenhem papel importante na atuação desses personagens. Quando a energia se dispersa, por ação de outros fatores neuróticos que a neutralizam, o tipo narcisista revelará seu caráter em manifestações voluntariosas igualmente dispersivas. Como já se demonstrou em outros artigos, a personalidade do neurótico é como um saco de gatos: por dentro muita energia e até desespero; mas por fora as ações são vistas como de curto alcance, contraditórias e incoerentes.
Mas nem sempre o narcisismo se caracteriza por desejos de dominação. A sede de ser amado, e ver confirmadas suas qualidades supostamente superiores, pode levar o narcisista a assumir atitudes de falsa humilde e submissão. Para isso, bastará que ele se convença de que a humildade e a submissão são qualidades superiores.

NASCE UM NARCISO - O que caracteriza o narcisismo, portanto, não é o mero egoísmo e nem tampouco a apreciação de qualidades reais. A mulher bonita pode encontrar uma satisfação real e perfeitamente normal ao tomar consciência de seus predicados físicos. O homem inteligente e o que revela uma especial habilidade na realização de negócios poderão igualmente desfrutar o prazer de comprovar tais qualidades.
O que é anormal, e caracteriza uma atitude narcisista, é a avaliação exagerada de qualidades reais ou a atribuição de qualidades inexistentes. Não pode ser considerado narcisista o homem que verifica e aprecia sua força física, quando ela efetivamente for superior à normal. Mas se desse simples aspecto de sua individualidade ele for levado a concluir que é superior a todos os outros homens, sua atitude será a de uma clara supervalorização narcisista. Igualmente, a pessoa que se convence de possuir dotes artísticos, quando lhe faltam inspiração e preparo técnico para realizar algo significativo nesse campo, estará atribuindo a si uma qualidade inexistente. E essa avaliação exagerada caracteriza uma atitude narcisista: supervalorização do ego.
Repressões violentas impostas pelo mundo exterior a uma criança são os fatores mais comuns na formação de um narcisista. Quando no ambiente familiar ou de escola a criança experimenta reprovações acentuadas e repetidas de seu modo natural de ser, essas barreiras poderão gerar-lhe a idéia de que não á amada, nem aceita. Desenvolve-se a partir daí o temor e a desconfiança em relação à hostilidade exterior. E, por não sentir-se amada, a criança perde muito de sua capacidade de amar.
Por quê? Porque a carência de amor provindo de outras pessoas determina a necessidade de ela própria prover seu ego de aprovação. O interesse afetivo, que normalmente se desenvolveria em relação a objetos e pessoas fora dela, acaba por voltar-se para dentro. Se ninguém lhe dá amor, ela própria se dará. Esse fenômeno tanto poderá decorrer de um rigor disciplinar que ela considere injusto como de um desinteresse afetivo que ela perceba nos pais e nas pessoas de sua convivência.
Como não é aceita pelo que realmente é, a criança tende a abandonar a natureza real de seu próprio ego e a substituí-la por outra, basicamente imaginária, porém capaz de obter a aprovação desejada. O mesmo processo poderá decorrer de outro tipo de relacionamento também bastante comum entre pais e filhos: os pais atribuem à criança qualidades que ela sabe não possuir, tais como beleza, inteligência ou talento artístico excepcional. Sabedor de que os pais o apreciam por ser “um gênio”, o garoto tudo fará para ser um gênio. E tão cedo tome conhecimento de que não é, passará a fingir que é, por meios fraudulentos.
Em qualquer dos dois casos, o resultado é basicamente o mesmo. A criança saberá que não é amada pelo que é. E tentará desesperadamente corresponder à idéia falsa que fazem dela, para conseguir mérito, aprovação, amor. Em tão dramática luta, três tendências poderão desenvolver-se, conforme concorram outros fatores: a) a criança adota os padrões de opinião vigentes; b) submete-se humildemente à vontade alheia, numa atitude de auto-anulação; c) promove a supervalorização do ego.
Nesse terceiro processo, que interessa particularmente agora, o indivíduo se refugia no mecanismo de defesa de negação da realidade (ver “Mecanismo de Defesa”). Não que a realidade passe a ser negada. Apenas, assume aspecto secundário. O indivíduo se imagina dotado de potencialidades e qualidades ocultas que “um dia” o levarão a ser presidente da República, um grande magnata, cientista ou meramente o maior jogador de futebol do mundo. Em todos os casos, ele passa a ser um herói que ninguém suspeita que ele seja, até que “um dia”...
Se não o amam, se não o aprovam, é porque as pessoas não o compreendem nem sabem de suas “secretas qualidades”. Esse mecanismo de defesa tem inspirado muitas obras de arte, em geral cômicas, porque a discrepância entre as aspirações do narcisista e a realidade retratam a essência do ridículo: o que caracteriza o ridículo é justamente o contraste.
Mas nas melhores obras de literatura e do cinema que focalizam o problema, sempre se pode divisar o sentido trágico por trás do cômico. O narcisista se destrói pelo desamor às pessoas, por sua incapacidade de amar e pelo duelo desigual contra uma realidade imponente. Mas, sem a defesa do narcisismo, ele provavelmente se afogaria ainda antes, na ansiedade que inundaria seu espírito.

O NARCISISMO - Segunda Parte

A necessidade neurótica de afeição, admiração e aprovação do narcisista típico não pode ser retificada espontaneamente. Para ele, relacionamento humano desse tipo é uma condição de sobrevivência. Não se sentir amado, admirado e aprovado em grau intenso e muito amplo significa para ele encurralar-se nos labirintos de uma ansiedade insuportável.
No campo da arte, e outros setores de atividades afins, essa condição pode ser observada com nitidez. As pessoas com tendências narcisistas se encaminham forçosamente para atividades em que ocorra alta valorização do desempenho individual: cinema, teatro, televisão, rádio, jornalismo, política ou esporte profissional. Isso explica a competição exaltada (e muitas vezes inescrupulosa) que ocorre nessas situações. Explica também padrões de conduta incomum, extravagância de atitudes e no modo de vestir ou falar. Em todos esses processos está presente a preocupação de marcar o ambiente com a presença de sua pessoa. É o ego que precisa inflar-se e parecer maior do que na realidade é, não importa muito qual o artifício requerido para isso.

MALES NO NARCISISMO - Para o narcisista não há escapatória: a ansiedade que ele busca evitar acabará por se impor, seja por ação do tempo, seja por outros fatores. O cantor perderá sua popularidade, o halterofilista se tornará flácido, a vedete fatalmente acabará eclipsada por outra mais jovem ou mais talentosa. O inferno da angústia acabará por abocanhar a todos.
Mas, além desse “juízo final”, o narcisista está exposto a muitos outros tipos de sofrimento. Como as pessoas o julgam por manifestações aparentes, e não pela natureza essencial de seu caráter, o narcisista acaba desenvolvendo o vício de cultivar a aparência, e não a essência. Porque com a aparência ele consegue gratificação afetiva de si próprio e dos outros.
Quando lhe derem um trabalho, ele tenderá a aceitar ou recusar, conforme o prestígio que daí resulte (a própria compensação financeira de um trabalho é avaliada pelo narcisista em termos de prestígio: ganhar bem é importante para ele porque “dá cartaz” e não porque lhe satisfaça outras necessidades normais). Poderá empenhar-se em conquistar uma mulher bonita, não tanto pela atração real que ela exerça sobre ele, mas para desfrutar a boa impressão que essa conquista supostamente, ou de fato, causará sobre seus amigos.
Apesar de toda a couraça com que se protege, o narcisista não pode escapar inteiramente à ansiedade produzida por usa condição. Ele “sabe”, sem ter consciência disso, que está exposto ao perigo de ser desmascarado a qualquer momento. A aparência cultivada para seu auto-engrandecimento poderá ruir a qualquer instante.
Para escapar a essa situação de “suspense”, o narcisista mergulhará no redemoinho de um círculo vicioso. Passará todo o tempo a cuidar dessa barreira defensiva que é a aparência falsa de sua personalidade supervalorizada. E inventará novos atributos, na atitude de uma pessoa temerosa que empilha na barricada tudo que tem à mão.
Um dos recursos defensivos mais comuns, em tais casos, consiste na elaboração de idéias de grandeza ainda mais ousadas e fantasiosas. Critica o mundo por não reconhecer nele o gênio que supõe ser. O fato de não ter sucesso, nem fama, nem glória, nem dinheiro nunca é admitido como resultado da incoerência improdutiva de seu modo de ser. Ao contrário, ele se convence de que lhe faltam oportunidades por causa da “injustiça social” e que ninguém compreende seus quadros nem suas poesias simplesmente porque essas obras são arrojadas demais para a época em que ele vive.
As exigências sobre as demais pessoas e sobre o mundo, para justificarem-se, impõem acentuação crescente de supostas qualidades do narcisista, que afetará ser capaz, generoso, financeiramente estável e próspero, influente e assim por diante. Mas como as pretensões em relação ao mundo são sempre exageradas quando provêm de um narcisista, as pessoas nem sempre se dispõem a satisfaze-las. Quando se interessam, por outro lado, buscam comprovar o que o narcisista efetivamente tem a oferecer e logo descobrem que as qualidades exibidas estão supervalorizadas.
Dois exemplos disso podem ser colhidos na vida comum: o narcisista que se candidata a um emprego tentará dar a impressão de ser muito mais capaz, experiente e inteligente do que na verdade é. Mas ao submeter-ser a testes psicotécnicos, o quadro resultante será muito mais pobre do que o de suas declarações. E o empregador se recusará a contrata-lo. Noutro exemplo: para causar impressão favorável sobre certa mulher que o interesse, o narcisista apresentará uma imagem deformada de si próprio. Afetará riqueza ou posição social, por exemplo quando inevitavelmente a mulher descobrir a fraude, passará a desconfiar de todas as outras afirmações e poderá desinteressar-se dele em definitivo.
Em situações como as duas descritas acima, sobrevirá uma inevitável decepção e um abalo na idéia engrandecida que o narcisista faz de si próprio. Em resposta, ele tenta reafirmar-se com a elaboração de outras idéias fantasiosas que lhe tornem mais acentuadas as supostas qualidades. E recomeça a volta do círculo vicioso.
Mas dos desapontamentos repetidos e das ilusões que nutre em relação a seus direitos sobre as pessoas, o narcisista vai acumulando ressentimentos. E quanto mais aumentam a hostilidade e as ilusões paliativas, mais crescem a ansiedade e a improdutividade de sua vida real. Cada vez ele espera com maior petulância que as pessoas o ajudem, façam sacrifícios por ele e que a solução de seus problemas “caia do céu”. Isto é, sobrevenha sem nenhum esforço dele.
Nesse processo, o narcisismo acaba por gerar maldade: o narcísico se torna egoísta, rancoroso, desonesto, desconfiado, cruel e inflexível para com os que o amam. Como qualquer doença, o narcisismo pode complicar-se.
Narcisismo é apenas uma tendência entre outras que compõem a personalidade. E, por isso, suas manifestações nunca aparecem isoladas na prática, e sim combinadas com outras tendências que pode acentuá-la (como o sadismo) ou atenuar-lhe parcialmente os efeitos (como a existência de dotes reais que lhe permitam usufruir retribuições genuínas).
O paradoxo dramático do narcisismo consiste no fato de que o narcisista é, antes de tudo, incapaz de amar, pois amor supõe doação, entrega, interesse pelo par. E, apesar disso, não pode dispensar admiração e amor de outros.
O narcisismo é tão comum na cultura ocidental que o egocentrismo, a permanente “promoção” pessoa, a exploração egoísta de outras pessoas (tanto no plano afetivo como no plano material) são francamente encontrados em neuróticos e em outros indivíduos que não pode ser definitivamente declarados como tal.
As pessoas que amam os narcisistas acabam por nutrir secreta hostilidade em relação a eles. Não só nesses casos, mas em qualquer outro em que se estabeleça dependência afetiva sempre haverá rancor, em manifestações ocasionais ou freqüentes, conforme o caso. Exemplo típico é o da dupla Gordo e Magro, sempre amigos, mas sempre ressentidos com a exploração afetiva de um sobre o outro.
Finalmente, importa ressaltar a diferença entre o amor-próprio normal e a inflação egoísta do narcisismo. A pessoa que tem consciência de qualidades reais encontra nisso uma satisfação perfeitamente normal. A pessoa que necessita atribuir-se qualidades fictícias é narcisista. A diferença, portanto, não é de grau. Não se trata de o indivíduo normal gostar “um pouco” de si, enquanto o narcisista se adora. Trata-se apenas de autoestima por si próprio ser proporcional às qualidade e realizações autênticas que a pessoa haja alcançado.

Psiquiatria: Masoquismo

Termo bastante vulgarizado, “masoquismo” passou a fazer parte do vocabulário popular depois que a psicanálise o utilizou para descrever um tipo de comportamento sexual caracterizado pela perversão. A palavra passou a designar, por extensão, situações caracterizadas pela busca de sofrimento. O termo origina-se de Leopold von Sacher-Masoch (1836-1895), escritor alemão autor de diversas obras literárias onde o assunto é amplamente abordado.
Atualmente, masoquismo serve para designar, na linguagem técnica da psiquiatria, uma séria de comportamentos diferentes entre si, intimamente relacionados com a busca do prazer através de um sofrimento.

ALTERAÇÕES CONSCIENTES - Uma forma de masoquismo bastante complexa é a que visa essencialmente ao prazer sexual. Nesse tipo de atuação, a pessoa tem ciência mais ou menos completa das alterações de comportamento sexual que apresenta e se escraviza a elas. Mais cedo ou mais tarde, o indivíduo estabelece íntima ligação entre o prazer sexual e o sofrimento. Em outras palavras, o indivíduo precisa sofrer para alcançar o prazer sexual. Descobre que as manobras que realiza para a prática sexual, algumas extremamente complexas, visam a estabelecer a situação de sofrimento, sem o que não é atingido o orgasmo.
O cinema e a literatura sensacionalistas exageram o quadro, mostrando casos que chocam pela humilhação a que o masoquista se submete. Isso resulta do fato de a humilhação constituir o traço fundamental que toda atuação aberrante procura despertar. Aos olhos do espectador despreparado, o masoquista se apresenta como uma vítima, um dominado diante da situação que a parceira lhe impõe.
O papel de submissão ao vexame é assumido artificialmente, ou apenas de modo aparente, após meticulosa elaboração das regras do jogo, onde quem dá as cartas, na verdade, é o masoquista, e não a parceira “opressora”. Freqüentemente, a parceira foge do papel que lhe é imposto, não desempenhando a atuação agressiva que deve desenvolver de maneira artificial. Nos casos comuns de masoquismo, a parceira é aliciada sutil ou abertamente - nesse caso são quase sempre prostituas que aceitam desempenhar o papel exigido pelo masoquista, como uma “tarefa” desligada do ato sexual natural.
A minúcia para os preparativos da situação prazerosa vai desde o ambiente - especialmente preparado para o ato - aos trajes de ambos os participantes. O masoquista desempenha então um papel bem inferior ao que exerce na vida real, o que facilita, a seus olhos, a situação humilhante. A dor também deve ser cuidadosamente dosada para que fique no limite suficiente à produção do prazer. Se for pequena, não chega a desencadear o prazer, e, se for muito intensa, prejudica o desenvolvimento da situação prazerosa, criando-se um sofrimento muito intenso e não o prazer controlado.
Quando a parceira não cumpre rigorosamente sua função, o masoquista se irrita de maneira violenta, ficando bem claro então quem detém realmente as regras do jogo. prazer sexual que leva ao orgasmo pode decorrer tão-somente da situação dolorosa ou pode ser complementado pela relação sexual genital. Ao contrário da relação sexual normal, o mecanismo preparatório da relação sexual masoquista deve obedecer a um ritual preestabelecido, sem o que o prazer não é alcançado. Perde-se a liberdade quer de atitudes, quer de tempo, da preparação sexual normal, para se tornar uma situação de estrita obediência, trazendo prazer apenas ao masoquista.

O ANSEIO DE PUNIÇÃO - O masoquista está sempre perseguido pela fantasia de uma punição rigorosa, mais intensa do que a vivida na situação encenada. As punições envolvem atos de caráter oral ou anal, que também trazem em si o sentido de vexame e humilhação. A parceira “ideal” dificilmente é encontrada, dada a complexidade que o “ritual” exige. Parece haver mesmo uma necessidade constante de troca de parceira, que se “gastaria” na tarefa de impor sofrimento e medo ao masoquista. A familiaridade da situação altera o aspecto de medo e submissão, que sempre devem estar presentes.
O prazer é buscado em dois níveis: é o fim a que se propõe a prática mas, por outro lado, é negado porque interrompe um ato, o que em si já acarreta uma situação de prazer. Muitas vezes, essa situação evolui para atitudes solitárias; nesse caso é usada apenas a imaginação deturpada, e a relação heterossexual transforma-se em masturbação. Toda a situação é vivida em termos de uma elaboração fantasiosa, independendo da presença de uma parceira real.

OUTRAS FORMAS - A conduta masoquista desligada da sexualidade é uma atitude muito mais geral, identificada com o modo de o indivíduo relacionar-se com o mundo. Essa maneira de reagir é inteiramente inconsciente, em oposição à atitude consciente da busca sexual de prazer masoquista. O indivíduo é incapaz de suportar suas vitórias ou então precisa anular as vitórias obtidas. Existem inúmeras pessoas que “só estão bem quando estão sofrendo”. Por índole, procuram as situações desconfortáveis, desagradáveis, que conduzam diretamente à dor.
São pessoas para as quais a vida não tem graça, ou melhor, “não pode ter graça”. Tornam-se rabugentas e antipáticas, pois tem uma disposição especial para neutralizar as situações agradáveis.

SADISMO E MASOQUISMO - Há muito tempo a psiquiatria conseguiu identificar um par de disposições diante das solicitações, o qual recebeu o nome de sadismo e masoquismo.
Esse par tem um sentido complementar e antagônico. Pode ser comparado, em termos gerais, à atitude ativa e passiva diante das situações. Ou, em termos de uma esquematização psicanalítica freudiana, pode ser identificado como manifestações ligadas aos instintos de vida e de morte. Freud admite a existência de uma forma masoquista primária, que consiste na ligação entre prazer sexual e dor.
Em sua teoria, também é enfatizado o sentimento de passividade. Em oposição encontra-se a atitude sádica, ativa, voltada para o exterior. O indivíduo, na impossibilidade de magoar a si próprio, procura externamente um alvo para realizar suas ânsias de tortura.
Por fim, esse sadismo pode retornar ao próprio indivíduo, transformando-se assim na forma de sadismo inconsciente, de sentido dessexualizado.
O comportamento neurótico tem com freqüência componentes sado-masoquistas. A perturbação do relacionamento com as pessoas tem como uma das conseqüências o mau uso da agressividade; ou a pessoa teme exageradamente ser agredida e então está constantemente em atitude defensiva, ou, ao contrário, assume atitudes superagressivas diante do perigo efetivo de cada situação.
Cria-se, dessa maneira, um mecanismo misto, com esses dois componentes, resultando, ao final um relacionamento ou atemorizado ou aterrorizante com as pessoas. Isso acaba por impedir a convivência normal dentro da sociedade, e a pessoa progressivamente se vê impossibilitada de desenvolver um sentimento de amor e afeição.

Psiquiatria: Inconsciente

Expressão extremamente difundida nos tempos atuais, inconsciente é um termo que envolve dois aspectos bastante distintos.
A primeira acepção da palavra é talvez a mais usada. “Após o acidente, Fulano deu entrada no hospital em estado inconsciente”. É uma frase que pertence ao cotidiano. A informação permite deduzir que o indivíduo em questão está desacordado, perdeu a consciência. Nesse sentido, inconsciência seria a caracterização de todo estado diferente do normal (a vigília). No caso mencionado, representaria a suspensão profunda e mais ou menos completa da atividade mental no estado de coma. Também quando dorme, o indivíduo está inconsciente, ao contrário da vigília.
O segundo significado do termo é aquele que se refere a uma qualidade ou setor da personalidade. É comum ouvir-se: “Eu não sou assim, a menos que isto seja inconsciente”, ou então, “Isto não é eu, é uma idéia má que me assalta”. Continuando nessa linha, acaba-se por concluir que do eu não resta senão um ponto imaginário que é, ao mesmo tempo, segundo Kretschmer, “a entidade mais imaginária e a mais imediatamente certa”. Isto equivale dizer que se trata de uma porção da personalidade que está fora do conhecimento e também do controle do indivíduo.

INFLUÊNCIA - Ainda que se atribua a revelação do inconsciente a Freud, torna-se necessário esclarecer o que veio a ser esta “descoberta”. Conhecido desde a Antiguidade, o inconsciente era encarado como um aspecto sem função ou interferência na atividade humana. Freud revolucionou toda a Psicologia ao demonstrar claramente a influência do inconsciente na vida psíquica.
No final do século passado, chegou-se a uma descoberta fundamental ao serem estudados os primeiros casos de histeria. Verificou-se que os sintomas histéricos tinham um sentido: representavam “deformada e simbolicamente” um acontecimento passado desagradável, afastado do campo da consciência justamente por despertar sentimentos indesejáveis.
Descobriu-se também que tal fato desagradável permanecia “arquivado” no inconsciente, mantendo toda a sua energia. Esta energia é, portanto, a responsável pelo aspecto atuante do inconsciente. Quando submetidos à hipnose, os pacientes histéricos reviviam o fato inconsciente e causador do trauma. Com isso, obtinha-se a liberação da energia até então reprimida e o decorrente término do sintoma.
O inconsciente é o sistema que abrange toda a atividade instintiva, ou seja, as representações psíquicas de todos os instintos, sempre à procura de satisfação. Nele também estão abrigados todos os afetos desagradáveis que não puderam ser livremente vividos e, portanto, sofreram a repressão. Estes afetos reprimidos também estão continuamente à procura de satisfação.
Existe todo um sistema bem articulado e preparado para evitar que tais impulsos inconscientes alcancem a consciência e que, assim, cheguem ao conhecimento do indivíduo. Em outras palavras, os impulsos inconscientes não são acessíveis à consciência clara, ou o são com extrema dificuldade. Fatos penosos que foram reprimidos ou recalcados - porque considerados contrários à moralidade, indesejáveis ou desagradáveis - dificilmente conseguem transpor o limiar da consciência. Genericamente, o sistema toma o nome de “censura” e tem a função de ajuizar a conveniência ou não de aparecer tal ou qual desejo.

LEIS DO INCONSCIENTE - Regido pelo princípio do prazer, o inconsciente atua pela sua obtenção, sem levar em conta qualquer outro dado. Totalmente desligado do princípio da realidade, quer apenas ser satisfeito, simples e instantaneamente.
Um segundo aspecto muito importante do inconsciente é a falta de qualquer sentido temporal em sua constituição. Os instintos, os afetos reprimidos, tudo enfim que forma o inconsciente, não guardam qualquer relação de tempo. Podem aparecer, numa mesma representação, fatos extremamente separados “no tempo aqui de fora”, já que os dias não são contados nos processos inconscientes.
A contradição é outro aspecto que não atua na regulação das atividades inconscientes. Há, por assim dizer, uma verdadeira “coexistência pacífica”. Fatos extremamente contraditórios podem viver lado a lado, sem qualquer problema. Tal “harmonia” é impossível no mundo consciente, que é regido pela lógica e não admite a coexistência de fatos contraditórios sem que isso cause dificuldades intelectuais ou emocionais ao indivíduo.
Todo fato inconsciente, em si, não pode ser conhecido. Somente seus efeitos é que afloram à superfície. Assim, nas neuroses os sintomas representam sempre manifestações inconscientes que, com o aspecto de deformação, conseguem atingir a consciência iludindo de alguma maneira a “censura”. São manifestações “inocentes” do inconsciente que conseguem alcançar a consciência.

SONHOS E GAFES - Por estas razões, os fatos inconscientes têm sido objeto de estudos intensivos, uma vez que são os responsáveis por certas formas de conduta anteriormente inexplicáveis. Exemplos disso são os lapsos de linguagem, de leitura e de escrita, gestos inesperados que o indivíduo não desejou afetar, esquecimento súbito de palavras familiares, estados sonambúlicos, sonhos, tiques nervosos, fobias, anestesias histéricas e muitas outras reações inadequadas.
Os sonhos, principalmente, constituem um meio muito importante que os conteúdos inconscientes utilizam para obter a sua satisfação. O processo onírico é sempre uma realização de desejos. Nos sonhos, utilizando-se de processos próprios do inconsciente - tais como simbolização, condensação de afetos, deslocamentos de pontos importantes dos sonhos para um segundo plano de outros -, os impulsos iludem a “censura” e conseguem atingir a consciência.
Os atos falhos constituem outra maneira importante de se encontrar manifestações do inconsciente e, por isso, foram exaustivamente estudados por Freud e seus colaboradores. Determinadas gafes, cometidas aparentemente sem qualquer intenção, na verdade representam sempre a realização disfarçada de algum desejo do inconsciente.
Quando num funeral um indivíduo “distraidamente” deseja “parabéns” à família, está manifestando um desejo inconsciente que pode ser a expressão de inúmeras situações. Por isso, cada caso deve ser analisado separadamente. Poderia, por exemplo, representar que o indivíduo preferiria uma festa ao invés da situação triste de um enterro. Como também poderia significar que a morte de tal pessoa não é realmente sentida com pesar pelo “distraído”. Nota-se portanto que, tal como nos sonhos, não pode haver uma explicação prévia e fixa para cada caso, pois bem grande é o número de situações que cada um deles pode representar.
O mesmo se poderia dizer sobre os motivos que levam alguém a esquecer, de maneira muito estrada, de ir ao casamento de um amigo que o convidou no dia anterior à cerimônia. Aos órfãos e aos enjeitados, por exemplo, seria difícil buscar no próprio inconsciente as razões para certos atos que praticam contra a sociedade. Tudo isto porque a motivação da conduta se esconde, em grande parte, no domínio do inconsciente.
Contudo, prevalecem a oposição e a “luta” entre o inconsciente e o “ego”, que comanda o contato com o mundo exterior e é regido pelo princípio de realidade, especialmente o “superego” - diferente do primeiro porque constitui o “ideal”, o censor incansável que exerce constante vigilância sobre a atividade do inconsciente. Desta forma, pesa sobre os impulsos inconscientes, regidos pelo princípio do prazer, toda uma “censura” que permite satisfações somente quando as exigências da realidade o permitem, obedecendo-se às determinações do “ego-ideal”.

Quem sou eu

Nascido no Japão como filho de massagista shiatsu em 1947, imigrado ao Brasil em 1959, residente em Marília/SP/Brazil desde 1997.

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